Fernando Altemeyer, sobre o bispo Cappio: "Jejum faz até Deus mudar de opinião"
por Marcos Guterman
O bispo Cappio: "Um homem de profunda espiritualidade"
O teólogo Fernando Altemeyer, ouvidor da PUC de São Paulo, conhece pessoalmente o bispo Luiz Flávio Cappio, que está em greve de fome desde o dia 27 por causa das obras de transposição do rio São Francisco. "O bispo não é um panfletário, um esquerdóide. É um homem de profunda espiritualidade", afirmou Altemeyer em entrevista a este blog. Para ele, não é possível julgar a atitude de d. Flávio à luz da doutrina da Igreja Católica - ou seja, não é possível falar em suicídio ou em martírio - , e "qualquer interpretação é temerária". Altemeyer afirma, no entanto, que entregar a vida por quem se ama é um gesto cristão, mas a pergunta a ser feita é: "Esse jejum terá como conseqüência algo maior do que o bispo? O que eu faço tem de resultar sempre em um bem maior; do contrario, não vale".
Leia a seguir a entrevista.
Blog do Guterman - Do ponto de vista da doutrina da igreja, o que o bispo Cappio está fazendo é tentativa de suicídio ou martírio?
Fernando Altemeyer - Nem uma coisa nem outra. A doutrina católica não legisla sobre esse tema. A questão está fora da doutrina, ao menos da forma oficial. Trata-se de um gesto de consciência, de uma forma de pressão de um líder religioso, decidida em oração, e a Igreja Católica não tem como interferir. É claro que a vida é um valor maior, mas esta é uma questão delicada, não há uma legislação específica. Qualquer interpretação é temerária.
Existe a interpretação positiva, isto é, posso elogiar a ação do bispo e dizer que seu gesto é como o de Jesus. Não há prova de amor maior do que dar a vida por quem se ama. Pode-se dizer que ele encontrou o caminho da entrega da vida, como quiser e quando quiser. Mas posso ler negativamente: a vida é de Deus, há outros caminhos de ação, e o bispo, afinal, não é Jesus, que pode ressuscitar. A cruz de Cappio é uma cruz sem retorno. Pela bioética, pode-se dizer: "Bem, vamos pensar em alternativas religiosas que passem por outras vias".
O gesto do bispo está numa linha limítrofe. Buda fez jejum, o profeta Muhammad fez jejum, o judaísmo prescreve o jejum, o jejum é um preceito religioso, mas a questão é a causa pela qual o jejum é feito. Dar a vida pelo outro é um gesto cristão, mas será que essa causa, a do rio São Francisco, é maior do que a vida do bispo? O rio São Francisco vale o jejum? Esse jejum terá como conseqüência algo maior do que o bispo? O que eu faço tem de resultar sempre em um bem maior; do contrario, não vale.
Blog do Guterman - Como o Vaticano deveria se posicionar a respeito do caso?
Altemeyer - Não sei. Se seguir a praxe, vai pedir que o bispo suspenda a greve.
Blog do Guterman - Como o sr. vê a atitude da CNBB, que promove "jejuns solidários" para apoiar Cappio?
Altemeyer - O jejum, na época do Advento, é obrigatório. É que aqui todo mundo fica pensando em comprar o peru, mas o Advento é um período de frugalidade, tanto quanto a Quaresma. Olhe, eu conheço o bispo Cappio pessoalmente. Ele não é um suicida, um panfletário, um esquerdóide. É um homem de profunda espiritualidade, é profundamente bom e simples. Se um homem dessa envergadura está fazendo isso, a CNBB só deveria apoiar. No Livro de Jonas [Antigo Testamento], Deus se arrepende e muda de opinião por causa do jejum do povo. O jejum mexe com Deus. A CNBB quis dizer isso.